Natália e Aarão

Nascimento da Maya

Domingo de páscoa (27/03/2016) – o dia que a Maya completava 37 semanas

Acordei às 5h, ou quase isso, com um pouquinho de líquido quente vazando. Olhei para o lado, vi o Aarão dormindo e deixei ele dormir. Com a tranquilidade de quem sabia que estava muito bem amparada, levantei pra fazer xixi e um monte de líquido saiu de uma vez, junto com o tampão.

Deitei outra vez e avisei que minha bolsa tinha estourado (para o Aarão? Para a Laura, minha Doula? Para a equipe da ComMadre? Não! Avisei minha amiga, falando que provavelmente eu não conseguiria estudar aquele dia, como havíamos combinado. Logo depois mandei uma mensagem pra Laura por whatsapp, foi então que me veio um pensamento: “Legal! Assisti a um monte de vídeos, li vários relatos, e nenhum começava com a bolsa estourando…era sempre uma contração leve que ia aumentando, ou seja, nada que eu esteja sentindo. E agora?”

Continuei tranquila, abri o Google, fiz uma busca e abri um site que dizia “Caso você esteja grávida de mais de 37 semanas avise o médico, prepare as coisas e vá para a maternidade, mesmo sem contrações. Não precisa necessariamente sair correndo, principalmente se for o primeiro filho, porque ele ainda deve demorar para nascer. Dá tempo de tomar um banho em casa”. Dei uma risadinha por dentro quando li “médico”, “maternidade”, “sair correndo”…mas enfim, banho! Por que não? Resolvi tentar.

Quando saí do banho mal deu pra me secar e… CONTRAÇÃO! Ouvi muitas mulheres falando que sentiram uma dor forte na lombar, a minha era na parte de baixo da barriga, mas eu não tinha dúvidas, era uma contração! Acendi a luz do quarto, deitei pelada, com o cabelo molhado e gemendo com as contrações que a essa altura não me davam nem cinco minutos pra respirar entre uma e outra. Então o Aarão abriu um dos olhos:

– Você tá bem?
– Tô bem, tá tudo bem.

Ele virou para o lado e dormiu outra vez. Dei risada e pensei que seria melhor mesmo ele descansar. As 5:40 baixei um aplicativo para ajudar a marcar as contrações, no fim de cada uma eu tinha que avaliar em “leve”, “média” ou “forte”. Cliquei em “leve” contra minha vontade e pensei que eu não aguentaria essa dor evoluir para “forte”. Levantei da cama algumas vezes mas nada de a dor diminuir, e nada de espaçamentos maiores que três minutos entre uma contração e outra.

Deitei na cama novamente e o Aarão acordou, abrindo os dois olhos dessa vez, eu contei que a bolsa tinha estourado e ele abriu um sorriso surpreso dizendo que ela ia nascer. Falei para ele ligar e avisar a Laura.

Levantei da cama e comecei a andar de um lado para o outro para ver se a dor diminuía, encostava na parede cada vez que uma contração começava. 6:30 o Aarão falou com a Laura, que veio correndo assim que ouviu meus gemidos no fundo da conversa. Então falei pro Aarão que eu não queria ninguém ali além da Júlia, uma amiga nossa. Ele deu risada e assentiu com a cabeça.

A Laura chegou, feliz, com aquela voz cheia de paz, e me encheu de conforto.
Se eu pudesse dar um conselho seria: usem filtro solar… digo, TENHA UMA DOULA! Não importa o parto que você quer, nem como, nem onde, se é domiciliar, se é hospitalar, se é cesárea, se é com anestesia, se é sem… Você, mulher grávida, procure uma Doula, voluntária ou não! Ela vai cuidar de você, ela vai te entender, ela vai te encher de conforto, ela não vai substituir seu/sua parceir@ no trabalho de parto, ela não vai substituir ninguém, mas ninguém vai substituir uma Doula. Acredite!

A Laura chamou a equipe, fomos para o chuveiro, era umas 7:30, e a dor diminuiu.
O Aarão buscou a máquina e começou a tirar fotos, nessa hora tive um breve arrependimento em não ter dado importância para o registro do parto, não ter contratado alguém ou ter chamado uma amiga, mas mentalmente agradeci ao Aarão por ser fotógrafo e ter lembrado de pegar a câmera na hora, mesmo sabendo que quando ele fosse ficar comigo não teríamos registro. E, como todos os outros pensamentos, esse também foi interrompido por outra contração.

A Laura disse que tinha avisado a Júlia (minha amiga) que eu tinha entrado em trabalho de parto e que se eu quisesse ela viria. Falei que queria.

Cada contração que vinha eu fazia um sinal negativo com a cabeça e pensava em anestesia. Durante o trabalho de parto teve três frases que vieram no momento certo. A primeira foi a da Laura:

– Nat, quando a contração vier não nega, não pensa que você não vai conseguir, você vai conseguir! Então pensa que você vai conseguir.

Aquilo ficou na minha cabeça, saímos do chuveiro e continuei na bola de Pilates com a Laura me segurando. Fomos para o colchão da sala e a Laura pegou o aplicativo pra marcar minhas contrações, que não tinham mudado de intensidade, mas quando terminavam ela marcava “forte”. Essa hora percebi que tive contrações fortes desde o começo.

Em algum momento a Luciane, minha enfermeira obstetra, chegou. O Aarão soltou a câmera para começar a encher a piscina e ficou do meu lado o resto do parto, me apoiando e me dando carinho. Quando vi que ele soltou a câmera tive a certeza de que não teríamos mais fotos, e veio outra contração. Durante essa contração pensei que eu não queria fotos, não queria vídeo, não queria nada… Só queria que aquilo acabasse logo!
A Laura me perguntava se eu queria alguma coisa e eu falava que queria dormir. Na minha cabeça só passavam aqueles vídeos de parto que as mulheres conseguem dormir entre uma contração e outra.

A Júlia chegou, quieta, com sacolas de compras, um tripé e uma câmera. Não consigo explicar, assim como não consegui falar na hora, o tamanho da felicidade que eu senti de saber que eu teria registro para lembrar do parto. Ela me deu um beijo e, durante o parto, só a vi mais duas vezes no meio das 700 fotos que ela tirou.

10:35 entrei na piscina. Alívio. Comecei a prestar atenção em tudo, tudo mesmo, tentava ouvir o que elas conversavam pra saber se realmente estava tudo bem, olhava a quantidade de batimentos cardíacos, e ficava me perguntando onde estava essa tal partolândia que não chegava pra eu me desligar. Recebi massagem, carinho, incentivo.

As contrações não davam descanso e foi a hora que eu pensei seriamente na anestesia:
“Tô cansada! Essas contrações estão me irritando…quero uma anestesia agora! Se eu for pro hospital, daqui uns 30 minutos eu vou ter tomado a anestesia… mas vou ficar 30 minutos dentro do carro sentindo dor de qualquer jeito… ah… deixa pra lá!”

Lembrei da frase da Laura mais uma vez. Consegui me concentrar e parar de fazer sinal negativo com a cabeça durante as contrações. Em vez disso, comecei a pensar que elas durariam no máximo dois minutos. E veio a segunda frase que eu precisava ouvir, da Lu:

– Respira a dor Nat! – ela disse, enquanto respirava fundo pra eu imitar.

Fiquei pensando “Como assim respirar a dor?”, imitei a respiração e percebi que quanto mais fundo eu inspirava menos dor eu sentia. Finalmente esqueci de vez da anestesia.
A vontade de fazer força apareceu aos poucos e eu fiquei confusa… respirava, fazia força, descansava, não sabia direito o que fazer. Perguntava o tempo todo se estava fazendo certo e sempre vinha uma resposta positiva acompanhada de um sorriso calmo. Também perguntava pra Laura quanto tempo ainda duraria e ela dizia que eu não tinha ideia de como estava perto.

Fui fazer um toque pra sentir a cabeça dela, e entrou só um terço do dedo. A posição deitada não estava ajudando, eu não me sentia confortável. Era 12h, a água esfriou, saí da piscina e fui para o chuveiro. No box tudo me incomodava: a posição, o espaço pequeno, o vapor… tudo!

Saímos do chuveiro 12:20 e decidimos que eu poderia ficar de cócoras. Fiquei um pouco na cama até pegarem um banco baixo. A Thaís, enfermeira obstetra, chegou também. O Aarão sentou e eu sentei de frente pra ele, nesse momento me senti confortável e segura instantaneamente. A Thaís sentou na cama com o Rebozo (um xale que as parteiras usam para aliviar as dores no trabalho de parto), e no meio das contrações eu comecei a ter a sensação de que a Maya descia um pouco quando eu fazia força mas voltava quando eu parava, isso começou a me deixar um pouco nervosa, parecia que eu estava fazendo pouca força, e sem eu ter que falar nada veio a terceira frase na hora certa, da Thaís:

– Nat, é assim mesmo, são dois passos pra frente e um pra trás.

Consegui me concentrar outra vez. A Thaís deu o lugar e o Rebozo pra Laura. Continuei fazendo força e senti o tal círculo de fogo… senti o círculo, o quadrado, o triângulo… que dor! E que alívio! A Maya estava chegando, ia dar tudo certo dali alguns minutos e era só continuar fazendo força. Vi uma parte da cabeça. A Maya desceu bem devagar, com os olhos abertos, abrindo e fechando a boca. A Laura no Rebozo comigo, o Aarão me segurando e eu gritando, ouvi um barulho estranho e depois me contaram que meus gritos estavam fazendo o bumbo da bateria vibrar.

A cabeça saiu, senti um alívio, depois de mais um tempinho e mais força o corpinho praticamente escorregou Era 12:56. O Aarão me abraçou forte e me deu um beijo, me esparramei no colo dele, estava exausta. Ouvi o chorinho dela mas só esperei… não precisava olhar, não precisava pedir, não precisava me preocupar. A casa era só amor e a felicidade de todos que estavam ali era tão grande que quase dava pra tocar. Descansei uns segundos com a certeza de que a Maya viria pro nosso colo imediatamente, e assim foi. Ficamos ali um tempo, chorei.

Deitei com a Maya, a Laura chorou comigo, a placenta saiu 13:14, Thaís e Lu me examinaram, o Aarão cortou o cordão 13:48. As 14h Lu e Thaís pesaram a Maya, a Júlia cozinhou e me deu comida na boca, tiramos a última foto as 15:06, todos foram embora e nós ficamos ali pensando em como tinha sido especial o nosso almoço de Páscoa.