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Por quê parir?

por | 01/06/2015

Essa é a uma pergunta que, com frequência, ouço de algumas mulheres, e vejo que essa dúvida é tão significativa que decidi usar a pergunta como título e sua resposta como post de estreia aqui no blog.

Pois bem, vamos lá. O fato é que nosso corpo é uma engenharia, cada célula dele foi projetada para alguma função e cada parte funciona sem que precisemos interferir nisso. Por exemplo, nosso coração, é um órgão que bate sem que ninguém precise falar para ele que é preciso bater. O mesmo acontece com a respiração, a digestão dos alimentos, a função dos rins, da bexiga, do intestino e, obviamente (e por quê não? ) com a concepção de uma nova vida. Nós, mulheres, fomos projetadas para engravidar, temos ovários que produzem óvulos e um útero para gerar e armazenar o bebê, certo? Ótimo, então porque não podemos parir????? E mais, porquê questionamos a função parir e não nenhuma das outras?

É impossível esta engenharia não funcionar em perfeita harmonia e equilíbrio com a natureza, impossível sermos fabricadas de maneira que tenhamos que tirar o bebê antes da época, impossível não entrarmos em trabalho de parto, impossível gerarmos bebês grandes demais que não possam passar pela nossa bacia ou pequenos demais que não aguentarão o trabalho de parto, impossível não suportarmos as dores do parto. Gente! Nosso corpo, biologicamente falando, foi criado para gerar a vida e para parir. Ponto.

Entendo quando algumas pessoas dizem que estamos na era de aquário, com muita tecnologia disponível, e entendo também quando essas mesmas pessoas se questionam sobre o porquê de sentir dor, com tanto recurso tecnológico disponível. Eu entendo vocês, podem acreditar.

Mas então vamos por partes. Na gestação lidamos com uma série de questões, a primeira delas é a correria do dia a dia, o sistema, enfim, o mundo, que faz com que a maioria das mulheres trabalhem até os 40 minutos do segundo tempo, então vem a ansiedade do final da gestação e a vontade de ver o bebê o quanto antes. Somado a essas questões, surge a falsa sensação de segurança trazida pela cesariana. Essa soma de fatores, aliados a falta de embasamento científico e de um bom acompanhamento de pré-natal, faz com que muitos casais optem por agendar a cesárea e não queiram nem ouvir falar de entrar em trabalho de parto.

Porque vivemos uma vida corrida e prática e estamos acostumados a horário marcado para tudo e porque não admitimos o imprevisto. Só que o parto não tem hora pra acontecer – acreditamos que entre 37 e 42 semanas, mas não temos a certeza de quando – e não tem hora nem para começar e nem para terminar. Não podemos dar um tempo para isso – a menos que realmente aconteça algo com a mãe ou o bebê e haja uma indicação precisa de cesariana. O parto é natural e nós, enquanto sociedade, temos muita dificuldade em lidar com o natural. Daí que nós não temos tempo e o profissional também não tem. O médico não está a dispor da mulher no momento que ela entrar em trabalho de parto, ele não tem tempo disponível para ficar com ela num parto que pode acontecer em horas ou em dias. Assim, partindo desse cenário, ou se agenda uma cirurgia ou se determina um tempo para essa mulher parir: caso o trabalho de parto não evolua em um tempo determinado, ele opera.

A questão é que independente da via (normal ou cesariana), esperar o corpo entrar em trabalho de parto garante que tanto a mãe quanto o bebê estão prontos para parir e nascer, enquanto que a retirada de um bebê com dia e hora marcada é violenta e, como sabemos, traz diariamente ao mundo um número alarmante de bebês prematuros que precisarão de cuidados de UTI nas primeiras horas de vida (Um estudo do Ministério da Saúde coordenado pela Fiocruz estima que 10,5% dos nascimentos no Brasil sejam prematuros e uma das causas é a cesariana agendada). Portanto, agendar um parto sem uma razão cientificamente embasada é violência, é faltar com respeito e dignidade num momento tão sublime que é o nascimento de um novo ser.

Daí que existem muitos mitos que amparam a necessidade de se extrair um bebê do útero de sua mãe, um deles é a segurança do parto. Culturalmente nossa sociedade acredita que a cesárea é mais segura, sem pensar que se trata de uma cirurgia de grande porte na qual, como toda cirurgia de grande porte, se faz uso de anestesia (medicação que atinge o sistema nervoso do bebê), traz imobilidade para a mulher, realiza-se a abertura da barriga, a manipulação de órgãos internos e traz uma perda sanguínea importante.

Será que realmente uma cirurgia é algo seguro? Pensem nisso com cuidado. Durante o procedimento há risco de lesão de órgão e de infeção, sem falar sobre a dor e os incômodos de um pós operatório vivenciado junto com um pós parto no qual se tem uma mulher se recuperando de um procedimento e com um bebê recém-nascido que depende dela para tudo. Será que essa dor, essa dificuldade que ela terá de se movimentar não trará nenhum prejuízo a esses cuidados? Gente, só no Brasil acredita-se que abrir uma barriga é mais seguro do que parir. A cirurgia cesariana salva vidas e é uma ferramenta incrível mas precisa ser usada com cautela.

Outro mito diz respeito à segurança do parto normal. E aí uma coisa é fundamental: a equipe escolhida pela família precisa saber atender parto normal. Porque o parto é demorado, requer tempo, paciência e habilidade. E isto, convenhamos, muitos profissionais não possuem haja visto que temos no país um índice altíssimo de cesarianas. Muitos médicos encontram uma urgência para encaminhar a mulher para a cesariana, fazendo com que ela acredite que seu filho ou sua vida está em risco. E não é porque o médico é malvado e está aí para nos enganar (ainda que alguns enganem sim, por conveniência e essa coisa toda) mas porque os médicos, em sua maioria, não são formados para atender parto normal e não tem habilidade de partejar (porque não praticam) o que faz com que encaminhem as mulheres para cesariana antes do trabalho de parto, para não correr risco. Por isso, escolher bem a equipe é fundamental.

Quanto a dor, bem, o parto normal dói sim, a dor faz parte da fisiologia do parto. Mas uma coisa que precisamos entender é que o limiar de dor de cada um é diferente, portanto, o que pra uma é muita dor para o outro é tranquilo, suportável. Por isso, dizer que tal dor é tão forte quanto uma dor de parto é uma grande bobagem. As dores das contrações existem porque o útero necessita destas contrações para se abrir e permitir que o bebê nasça, então, a cada contração sentida o bebê está mais perto de chegar. Outra coisa que sabemos é que se a mulher estiver amparada, acolhida pela família e pela equipe, a dor se torna diferente: se transforma em dor de vida, de nascimento, de amor, e não dor de morte, de desespero.

Bom, esse assunto é muito extenso e eu poderia ficar horas escrevendo sobre, mas acredito que tenha respondido à pergunta lá do início. Sim, eu, Karina, acredito que precisamos parir e mais, que merecemos fazer isso com respeito e dignidade porque parir é dar a vida a um outro ser sem ter que sofrer nenhum corte, nenhuma violência, é poder preservar sua integridade e a do bebê e poder acolher este ser em seus braços assim que ele nascer, e amamentar, e ninar e estar presente, inteira, como você e seu filho merecem.

Karina Fernandes Trevisan, enfermeira obstetra e parteira responsável pela Commadre

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